
Natureza abundante, fileiras ordenadas de prédio, e a agradável luz do sol brilhando por entre as frestas.
Era a Costa Esmeralda, a Cidade da Floresta Invasiva. Tendo recebido esse nome por causa do vasto volume de vegetação – virtualmente um mar verdejante – essa área hoje recebia dois visitantes: uma mulher e um Digimon, que viajaram para lá por um portal.
A mulher casualmente vestia um jeans, mas suas longas pernas e rosto atraente bem harmonizado chamavam a atenção. Embora suas roupas tendessem a passar um ar maduro, ela dava uma impressão gentil e amigável, com um delineador discreto e cabelo cacheado longo tingido de verde jade. Uma combinação perfeita com os arredores.
Seu nome era Suzune Kazuki.
Seu estilo não era nem chamativo nem extravagante, mas algo sobre sua aparência refinada implicava que ela não era uma pessoa comum.
Ao lado dela estava Yukidarumon, um Digimon com aparência simples e discreta. Dizem que um nome geralmente bate com sua natureza, e as orelhas de urso de Yukidarumon e seu corpo de boneco de neve passavam uma impressão gélida... mas o que chamava a atenção era seu tamanho. Suzune não era exatamente baixa, mas Yukidarumon tinha três vezes o tamanho dela. Digimons podiam variar individualmente, mas poucos Yukidarumons eram tão grandes.
Pra confirmar, quase todos os jogadores passando por perto parariam por um momento para lançar olhares curiosos para eles. Bom, para Yukidarumon principalmente.
– Sim, você com certeza se destaca – disse Suzune.
– Por isso que eu perguntei se devia ficar no seu D-Storage – Yukidarumon respondeu.
– E quem disse que isso era algo ruim? Não é meio legal ser o centro das atenções?
– Você gosta de se exibir, não gsota, Suzune? Eu não entendo vocês, gente rica!
Quando Yukidarumon apontou isso, Suzune escovou ligeiramente seu cabelo para trás com a mão esquerda, e o anel em seu dedo anelar brilhou com a luz.
– Digo, meu marido é que tem dinheiro, não eu. Mas acho que não posso negar que eu gosto da atenção. Mas você também não odeia isso, né?
– Acho que você está certa... Hee hee.
Atraindo a risada de Yukidarumon, Suzune riu também, seus olhos se contraindo em pequenas curvas.
– Não acho que eu devia agir assim na minha idade – ela disse.
– Você não é velha o bastante pra dizer essas coisas! – disse Yukidarumon.
Embora já fosse casada, ela ainda só tinha 22 anos. O lembrete de que sua juventude ainda não tinha acabado a confortou.
Agora...
Chega de se deixar levar por toda essa atenção.
Hora de trabalhar.
Sem que os jogadores em volta soubessem, Suzune Kazuki era membro de uma equipe que cuidava do jogo nos bastidores: a equipe de debug.
– Okay, Yukidarumon. Pode me ajudar agora?
Agora que eles eles estavam no limite da cidade, longe da multidão e do tumulto, Suzune fez seu pedido de sempre, enquanto esfregava o tornozelo.
Sem dizer nada, Yukidarumon a ergueu colocando-a em seu ombro esquerdo enquanto caminhava lentamente.
– Obrigada.
Não era que ela tivesse machucado o pé ou estivesse cansada.
Era um ambiente num metaverso afinal. Não rastreava fatiga nem providenciava feedback de cansaço físico. Mas a jovem mulher gostava da vista de cima do ombro de Yukidarumon.
Comparando à banalidade do nível do chão, colocava as coisas em um perspectiva completamente diferente. E mesmo se ela sentisse, não havia por que se preocupar em su machucar. Ela pedia carona a Yukidarumon sempre que eles saíam para investigar simplesmente porque gostava disso.
Mas tinha seus benefícios também. As pernas longas de Yukidarumon permitiam que eles cobrissem uma distância muito maior nas buscas.
– Ei!
O rosto gigante de Yukidarumon virou para Suzune enquanto ela movia as pernas montada em seu ombro, balançando-as para frente e para trás e admirando a vista.

– Eu queria perguntar antes... Você age assim mimada na frente de todo mundo?
– Não mesmo. Se eu deixasse outras pessoas verem esse meu lado, elas iriam me desprezar, não iriam? Eu só sou assim na sua frente, Yukidarumon, e na do meu marido. Ah, e da minha mãe em casa também – respondeu Suzune.
– Bem, isso não é bom!
De fato, Suzune se sentia tão confortável e relaxada perto do parceiro Digimon que era quase como voltar à casa de sua família. Parte disso era devido à personalidade de Yukidarumon, mas igualmente, algo sobre o tamanho maior de Yukidarumon fazia Suzune querer agir de forma infantil e indefesa. Quantas vezes ela pensou em pedir uma almofada gigante na forma de Yukidarumon desde que ela começara esse trabalho...?
O salário de seu marido era significativamente alto. Dava pra dizer que eles eram bem de vida. Mas Suzune tinha decidido que queria contribuir com a renda por conta própria. Ela queria trabalhar enquanto ainda era capaz, então não importava o que acontecesse, eles sempre estariam bem.
O trabalho tinha seus momentos de estresse, claro, mas ter aquele Yukidarumon sempre compreenssivo ao seu lado ajudava a continuar.
– Então, qual é a missão mesmo? Procurar por Digimons perdidos nessa área, né?
Suzune acenou em conformação para seu parceiro.
– Isso mesmo – disse Suzune. – Houve uma denúncia pouco tempo atrás de um jogador comum enfrentando um NPC que tinha se descontrolado.
Suzune estava se referindo à aparição recente de NPC furiosos em volta da Costa Esmeralda¹.
Felizmente isso não era de conhecimento público, mas com um jogador comum derrotando um NPC descontrolado, um novo problema surgira.
– Em outras palavras, o Digimon que o jogador derrotou agora está solto por aí, certo? – Yukidarumon concluiu.
Investigações recentes confirmaram que Digimons selvagens estavam invadindo os corpos de NPCs e levando-os ao decontrole. Então, como Yukidarumon dissera, um Digimon selvagem dominara um NPC antes de surtar agora estava à solta em Lacuna.
Sem a proteção de uma carta, qualquer Digimon que permanecesse em um ambiente de Lacuna para o qual não estivesse adaptado iria desaparecer em pouco tempo. Ao menos era o que os debugadores e o resto da equipe de administração acreditavam².
Por isso lidar com um NPC descontrolado devia ser uma tarefa para a equipe de debug. Depois de derrotar o NPC, o Digimon deveria ter sido capturado apropriadamente e mantido em segurança. O plano era então enviá-lo ao Jardim.
Infelizmente, as coisas tinham ficado complicadas.
E a culpa recaía diretamente nos GMs e na equipe de debug por falhar em lidar com a situação.
– Mas aquela luta entre o jogador e o NPC descontrolado foi já há algum tempo, não foi? – disse Yukidarumon. – As chances de acharmos ele agora não são boas.
De fato, a quantidade de tempo que um Digimon selvagem podia se mover por Lacuna era limitada a algumas horas. Alguns dias, no máximo. Provavelmente as chances de encontrá-lo tinham acabado.
Mas...
– Ainda podemos conseguir – disse Suzune.
– E como você sabe?
– Por duas razões – Suzune continuou.
Não havia indício de arrogância por trás de sua declaração confiante.
Razão número um: Suzune levantou o dedo indicador da mão direita.
– Temos telatos de testemunhas oculares. Outros jogadores que viram a luta com o NPC descontrolado informaram aos GMs. Os registros incluem menções de um Digimon fugindo sem uma companhia humana na área da Costa Esmeralda.
Jogadores sem ciência da verdadeira situação informaram como um bug gráfico. E descrições do Digimon batiam com o tipo que tinha invadido o NPC e causado o descontrole.
Razão número dois: Suzune levantou um segundo dedo.
– Aparentemente um Digimon que hackeou um NPC pode sobreviver mais tempo em Lacuna que um que não hackeou.
Digimons selvagens invadiam os corpos de NPC por causa de seus instintos de sobrevivência. Eles usavam o corpo do NPC como traje de proteção, mas ao custo de perder a noção de si próprios, deixando-os enlouquecidos. Uma vez que eles perdiam essa proteção, seus instintos eram de procurar um novo lugar para se esconder.
Depois de se infiltrar no hospedeiro, o Digimon se tornava ciente de que possuir um NPC o deixaria louco, e ganhava uma pequena quantidade de resistência ao ambiente.
– Então, quando eles recuperam o juízo se si com esse novo conhecimento, os Digimons não cometem o mesmo erro duas vezes – explicou Suzune. – Confirmamos que tal Digimon com resistência aumentada ao ambiente também tam habilidade de hackear melhoradas. Parece que eles se escondem dentro de objetos dentro do mundo do jogo agora.
– Quer dizer tipo grama, árvores, e sei lá mais o quê? – Yukidarumon perguntou.
– Correto – disse Suzune.
Era uma descoberta muito recente.
Alguém tinha entrado numa densa floresta de bambu nos limites da região da Costa Esmeralda e descoberto um Digimon selvagem escondido dentro de um. Dizer assim parecia bobo, um Digimon se escondendo em objetos inanimados, mas depois dessa descoberta houve evidência irrefutável de que era possível.
– Bem – Suzune continuou. – Eles podem se esconder, mas não pra sempre. Mas permite que eles sobrevivam por mais alguns meses.
Comparado a se esconder no corpo de um NPC, onde eles podiam ao menos se mover por aí, se trancar dentro de um objeto inanimado devia ser extremamente desconfortável para um Digimon. Sim, estendia seu ciclo de vida, mas eles não podiam fazer nada além de ficar ali até seus dados desaparecerem.
Mas suzune acreditava que ainda havia tempo.
– Baseado nesse fato, ainda podemos ter uma chance de encontrar o Blucomon que escapou. Desde que ele salte de um objeto para outro – disse Suzune.
– Ah.
Animeado, Yukidarumon soltou sua usual risada ligeiramente lenta.
Eles acharam o Blucomon pouco depois.
Estava a apenas algumas centenas de metros de distância em linha reta de onde ele fora avistado originalmente. Suzune e Yukidarumon o viram se esconder em uma área de vegetação densa, caído com a mão para fora, provavelmente depois de tentar se entrar em um objeto do jogo.
Pela curta distância que ele conseguiu viajar, parecia que aquele Blucomon não tinha muito tempo restante.
– Graças a Deus – Suzune suspirou.
– De fato – concordou Yukidarumon.
Eles dois deram um suspiro de alívio e Suzune saltou do ombro de Yukidarumon. Então ela imediatamente colocou uma carta em branco em seu D-Storage para providenciar a proteção necessária.
– Carta em branco, pronta. Emblema ùnico, ativar. Captira de Digimon, executar.
A tela de seu D-Storage se acendeu com um brilho intenso. A luz envolveu o Digimon e poucos momentos depois a carta anteriormente em branco agora mostrava uma imagem de Blucomon na frente.
Agora tudo que ela precisava fazer era transferi-lo para o Jardim, e a missão estaria completa.
– Aaah!
No momento em que ela estendeu o dedo para confirmar a transferência, Suzune ouviu um grito estridente atrás dela. Mesmo sem olhar, ela podia dizer que era a voz de uma garota mais nova.
Não era uma voz que ela já tivesse ouvido antes, então não podia ser um colega de equipe...
Ao se virar, suas suspeitas se confirmaram: uma garota de cabelo curto estava ali, vestindo um uniforme escolar com um blazer. Uma garota do ensino médio... Não, talvez nem estivesse no ensino médio ainda. E ao lado dela estava um Digimon Nível 3, Pico Devimon.
Suzune estava cinfiante de dque memorizara todos os nomes e rostos dos membros da equipe de debug. Havia alguns ainda no pimário, mas nenhum que tivesse um Pico Devimon como companhia.
– Espera, espera! – gritou a menina. – Não interrompa nossa quest.
– Sim, sim, sim! – gritou o Pico Devimon. – Nós achamos esse Blucomon antes de você!
– Eu estava prestes a capturar ele eu mesma! – griotu a menina.
– Furar a fila quando tem outra pessoa na quest não é justo! Não é mesmo, Reina?
– Isso mesmo! Devolva!
A criança chamada Reina e o Pico Devimon tagarelavam sem parar. A algazarra deles fazia a cabeça de Suzune doer. Ainda assim, ela passara tempo o bastante com Yuuki e os outros para se acostumar com isso. Era só um desconforto moderado dessa vez, não uma enchaqueca intensa.
– Hm, desculpe – disse Suzune. – Lamento, mas talvez você pudesse me explicar o que quer dizer com quest?
Ela tentou ao máximo para permanecer calma. Ela estava menos preocupada com os ânimos barulhentos da dupla, e mais preocupada com aquela palavra desconcertante que ela tinha usado. Primeiro, ela tinha que conseguir alguma informação deles.
– Tch! – Reina chiou. – Esses casuais que só fazem login de vez em quando não tem amor pelo jogo!
– Reina, escuta. Ela provavelmente é uma mulher de negócios ocupada subindo na carreira, procurando uma pausa no meio dos longos dias no escritório – Pico Devimon imaginou. – Ela tem esse ar. Ela não vai amar o jogo tanto quanto voc~e, okay?
– Uma mulher de negócios? Subindo na carreira? – disse Reina. – Isso é tão legal... Hm, obrigada por todo o trabalho duro que você faz todos os dias!
– Além disso, essa quest não é pública, ainda está em teste – Pico Devimon a lembrou. – Lembra o que a mensagem dizia? Provavelmente é só uma coincidência que eles estão aqui. Acho que seria melhor negociar isso pacificamente.
– Você pode ter razão... – Reina considerou. – Okay! Vamos negociar, Srta. Trabalhadora Abatida!
Você dois não sabem o significado de boas maneiras, sabem? – disse Suzune. – Amora, eu não tenha muita certeza se estou sendo insultada ou elogiada...
A dupla se provava mais difícil de lidar do que parecia, mas mesmo conrontada com tamanha indelicadeza, Suzune resolveu manter um ar profissional.
Ela tentou se recompor.
A garota e seu Digimon esperavam uma negociação. Eles provavelmente queriam que ela entregasse a carta do Blucomon. Mas negociações à parte, Suzune precisava saber mais sobre a quest. Era para onde ela precisava dirigir a conversa.
– Essa sua quest... – Suzune começou. – Te pediram pra capturar esse Blucomon?
– O que você acha, Devvi? – perguntou Reina. – Devemos contar a ela?
– Se você quer que alguém te mostre as cartas, tem que revelar algo primeiro – Pico devimon aconselhou. – É a regra básica da negociação, Reina.
– Entendi – disse a garota. – Sim, o que ele diz. Nossa missão era capturar um Blucomon selvagem!
Um pouco de honestidade ajudava muito. Adicione isso à idade e charme da garota, e Suzune sentiu seu coração suavizar um pouco, assim como Pico Devimon previu.
Mas a situação era séria. Não era hora para jogos fofos.
– Diga, Suzune – Yukidarumon disse. – Você não acha que...
– Sim – concordou Suzune. – Exatamente.
Os dois trocaram olhares.
Algo definitivamente não estava certo.
Como mencionado mais cedo, a presença de Digimons selvagens em Digimon Liberator não era de conhecimento público. Muitos dos jogadores que os encontraram deixavam eles passarem como bugs gráficos, e era isso. E proteger Digimons selvagens, em outras palavras, capturá-los, era uma tarefa para a equipe de debug, e os detalhes eram estritamente confidenciais.
Mas Reina usou essas palavras exatas. Que ela estava lá para "capturar" um Blucomon "selvagem".
– Reina, não é? – Suzune perguntou.– Como exatamente você ia capturar esse Digimon?
– Eu ia usar isso! – disse Reina. – Adicionaram ao meu inventário quando eu aceitei a quest na tela de Iniciar Quest!
Ela segurava uma carta em branco que parecia a que Suzune acabara de usar para capturar o Blucomon.
Mas havia uma clara diferença das cartas em branco que Suzune conhecia.
A carta da menina era preta.
Suzune nunca tinha visto ou ouvido falar em tal item. E também, se ela estivesse falando a verdade, alguém com acesso de administrador tinha enviado pessoalmente a quest a ela.
– Oh, e olha isso! Depois que eu terminar a quest, vou receber Chips de Arte Alternativa! Eu queria ficar com todos, mas o que me diz que dividirmos meio a meio?
Os Chipes de Arte Alternativa de que Reina estava falando eram, resumidamente, itens consumíneis que deixavam você aumentar a raridade das cartas. Não era difícil colocar as mão em alguns chips, mas eles dão não davam em árvore, e precisava de um número considerável deles pra usar no jogo. Isso fazia deles itens de barganha muito útil.
Suzune podia ver claramente o truque. Ela não sentia que era trapaça por parte de Reina. Mais como se outra pessoa fosse quem tivesse enviado a quest em primeiro lugar estivesse por trás dos panos. Chips de Arte Alternativa definitivamente eram um bom jeito de atrair jogadores normais pra cumprir as suas ordens.
As suspeitas de Suzune aumentavam a cada segundo.
Uma carta preta em branco... uma boa recompensa de Chips de Arte Alternativa... Uma visão nefasta de alguém se infiltrando na equipe de administração e puxando as cordas nas sombras surgiu na mente de Suzune... Quem poderia ser? Qual era seu objetivo?
– Reina. Isso é uma negociação, certo? – perguntou Suzune.
– Claro que é! – disse Reina. – Vamos fechar o acordo?
– Não tão rápido – disse Suzune. – Se estamos negociando, então me permita colocar algumas condições também.
Suzune esteve pensando na missão como outro trabalho qualquer da equipe de debug.
Mas agora, um jogador perspicaz, mas sem ideia do que acontecia, tinha entrado no meio, aparentemente sendo manipulado das sombras.
Viera de lugar nenhum, mas ela agora percebia a gravidade da situação para a equipe de administração.
– Vamos nessa, Suzune – disse Yukidarumon.
– Sim. Hora de cortar essa corrupção pela raiz!
E assim Suzune sacou o D-Storage e apontou diretamente para Reina.
– Vamos batalhar, Reina – disse Suzune.
– Se você vencer, eu te dou a carta de graça – dessa vez fora Suzune quem falara sem pausa, sem deixar Reina e PicoDevimon terem a chance de interromper.
– Mas se eu vencer, você vai se juntar a mim para tomar chá.
Continua
1 – De novo, a batalha de Shoto no Episódio 2 do mangá e que explicam no Episódio 5
2 – Explicado no Episódio 5 do mangá
PRÓXIMO CAPÍTULO
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